Há
alguns anos, durante um encontro com pessoas idosas em uma instituição de longa
permanência, percebi algo que hoje parece óbvio, mas que mudou profundamente a
maneira como compreendo meu trabalho.
Estávamos
cantando. Uma música conhecida puxou outra. Uma senhora lembrou um verso. Outra
corrigiu a letra. Alguém contou onde costumava ouvir aquela canção. Uma memória
trouxe uma história de família. A história despertou outra lembrança. Entre
risadas, movimentos, perguntas e respostas, aquela roda que poderia ser
descrita simplesmente como uma “atividade recreativa” havia mobilizado memória,
linguagem, atenção, expressão corporal, identidade, vínculos, cultura e
participação.
No
final, fiquei pensando: o que aconteceu ali?
Recreação?
Entretenimento? Estimulação cognitiva? Convivência?
Talvez
tudo isso estivesse presente. Mas faltava uma palavra que, para mim, se tornou
cada vez mais importante: Educação.
Desde
então, essa pergunta tem acompanhado minha atuação como pedagogo, gerontólogo e
arte-educador em instituições de longa permanência, serviços de convivência e
projetos culturais:
por que reconhecemos tão facilmente os processos educativos durante a infância e a juventude, mas temos tanta dificuldade de enxergá-los quando acontecem aos 70, 80, 90 ou 100 anos?
Vivemos mais. E a Educação?
A
longevidade está transformando nossas sociedades. Durante muito tempo,
organizamos a vida quase como uma sequência previsível: primeiro aprendemos,
depois trabalhamos e, por fim, nos aposentamos. A Educação ficou fortemente
associada às primeiras décadas da existência e à preparação para a vida adulta
e para o trabalho.
Só
que a vida mudou. Se nossas trajetórias estão ficando mais longas, essa divisão
começa a fazer cada vez menos sentido.
A
ideia de aprendizagem ao longo da vida nos convida justamente a compreender que
aprender não é privilégio de determinada faixa etária.
Mas
acredito que precisamos avançar um passo. Não basta afirmar que pessoas idosas
podem aprender. Precisamos perguntar:
Que
oportunidades de aprendizagem estamos oferecendo para elas? Quem planeja essas
experiências? Com quais objetivos? Que conhecimentos e formas de expressão são
reconhecidos? Como percebemos aquilo que foi aprendido?
E, sobretudo: onde está a Educação quando a pessoa envelhece?
Da “atividade” à vivência
educativa
Essa
pergunta se torna especialmente concreta dentro de uma Instituição de Longa
Permanência para Pessoas Idosas.
No
cotidiano desses espaços encontramos música, dança, pintura, jogos, rodas de
conversa, contação de histórias, exercícios de memória, celebrações, artesanato
e inúmeras outras propostas.
Todas
podem ser valiosas. Mas uma atividade não se torna educativa simplesmente
porque ocupa uma hora na programação. Existe uma diferença entre oferecer uma
atividade e construir uma vivência educativa com intencionalidade.
Quando
proponho uma roda de cultura popular, por exemplo, não estou preocupado apenas
em fazer com que as pessoas cantem.
Posso
trabalhar ritmo e atenção; estimular lembranças e narrativas autobiográficas;
reconhecer repertórios culturais trazidos pelos participantes; favorecer
expressão corporal; provocar interação entre pessoas que pouco conversam;
discutir direitos; apresentar algo que elas ainda não conhecem; permitir que
uma pessoa ensine à outra; registrar histórias; relacionar aquela experiência à
identidade de um território.
Nesse
momento, a pessoa idosa deixa de ocupar apenas o lugar de destinatária de uma
atividade.
Ela
lembra, pergunta, compara, escolhe, ensina, cria, interpreta, discorda,
compartilha e aprende. Isso muda a maneira como enxergamos a prática.
Música,
dança, literatura, oralidade, memória e cultura popular deixam de ser apenas
recursos de entretenimento e passam a constituir linguagens educativas quando
há objetivos, mediação, continuidade, observação e reconhecimento dos processos
de aprendizagem.
Não se trata de transformar uma ILPI em escola. Trata-se de reconhecer que a Educação pode acontecer onde a vida acontece.
Educação na Longevidade
Foi
desse chão da prática que comecei a utilizar a expressão Educação na
Longevidade.
Tenho
compreendido a Educação na Longevidade como um campo em construção que articula
conhecimentos, práticas e políticas voltados à criação de oportunidades de
aprendizagem, desenvolvimento humano, participação social, autonomia, expressão
cultural e produção de conhecimentos ao longo da vida, considerando as
múltiplas formas de envelhecer.
Essa
perspectiva vem sendo construída, no meu percurso, no diálogo entre Pedagogia
Social, Gerontologia, Arte-Educação e aprendizagem ao longo da vida.
Não
pretendo, com essa expressão, substituir conceitos consolidados ou simplesmente
dar outro nome ao que já existe.
A
intenção é organizar uma pergunta que considero urgente: qual é o lugar da
Educação em uma sociedade longeva?
Essa
pergunta não pode ser respondida apenas pelas universidades abertas à terceira
idade, por mais importantes que sejam.
Precisamos
pensar também na pessoa que vive em uma ILPI. Naquela que frequenta um Serviço
de Convivência e Fortalecimento de Vínculos. Na que participa de um centro-dia.
Na pessoa idosa que vive em um território periférico ou rural. Naquela com
deficiência. Na que teve poucas oportunidades de escolarização. Na que
necessita de apoio para realizar atividades cotidianas. E naquela que deseja estudar
uma nova língua, aprender a tocar um instrumento, compreender uma nova
tecnologia, contar sua história, ensinar uma técnica que domina há cinquenta
anos ou simplesmente descobrir algo que nunca teve oportunidade de conhecer.
Não existe uma única velhice. Consequentemente, também não pode existir uma única maneira de educar na longevidade.
O que a prática começou a
exigir de mim
Com
o passar dos anos, percebi que realizar bons encontros já não era suficiente.
Eu precisava compreender melhor o que estava fazendo.
Comecei
a registrar experiências, organizar planejamentos, observar respostas, produzir
materiais pedagógicos e identificar dimensões que apareciam repetidamente no
trabalho: cognição, movimento, identidade, memória, afetividade, cultura, convivência
e participação social.
A
prática começou a exigir método. Depois, o método começou a exigir
fundamentação. E a fundamentação começou a me levar para uma pergunta maior
sobre política pública.
Foi
desse percurso que começaram a surgir diferentes esforços de sistematização:
materiais pedagógicos, instrumentos de acompanhamento, uma metodologia de
trabalho, a escrita de um livro sobre Educação na Longevidade e a construção de
um marco referencial que procura aproximar prática cotidiana, conhecimento da
gerontologia, fundamentos educacionais e políticas públicas.
Não
apresento essas construções como respostas definitivas. Muito pelo contrário.
Elas
nasceram porque a prática começou a produzir perguntas para as quais eu já não
encontrava respostas apenas dentro de uma oficina ou de uma instituição.
Como
formar profissionais para atuar educacionalmente com pessoas idosas? Como
planejar percursos educativos que tenham continuidade? Como reconhecer
aprendizagens que não cabem em provas? Como documentar desenvolvimento,
participação, expressão, vínculos e produção cultural? Como transformar boas
experiências isoladas em programas sustentáveis? E como fazer tudo isso sem
escolarizar a velhice, infantilizar pessoas idosas ou transformar cada dimensão
da vida em indicador?
São questões pedagógicas. Mas são também questões gerontológicas, sociais, culturais e políticas.
Educação também é política
de longevidade
Aquilo
que observo no cotidiano das instituições não está desconectado do que o Brasil
já reconhece juridicamente.
A
própria Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional apresenta uma
compreensão de educação muito mais ampla do que a escola. Seu artigo primeiro
estabelece que a educação abrange processos formativos desenvolvidos, entre
outros espaços, na convivência humana, no trabalho, nos movimentos sociais, nas
organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais.
Essa
definição sempre me chama atenção. Se a educação acontece também na
convivência, nas organizações sociais e nas manifestações culturais, muitos dos
espaços onde pessoas idosas vivem, convivem e participam podem ser também
territórios educativos.
O
Estatuto da Pessoa Idosa vai ainda mais longe. Seu artigo 20 reconhece o
direito da pessoa idosa à educação e à cultura. O artigo 21 determina que o
poder público crie oportunidades de acesso à educação, inclusive adequando
currículos, metodologias e material didático aos programas destinados às
pessoas idosas.
O
próprio Estatuto avança nessa direção. Em seu artigo 25, prevê a oferta, pelas
instituições de educação superior, de cursos e programas de extensão destinados
às pessoas idosas, presenciais ou a distância, constituídos por atividades
formais e não formais, na perspectiva da educação ao longo da vida. Esse trecho
me parece particularmente provocador. Porque, se precisamos adequar currículos,
metodologias e materiais, existe aí uma questão essencialmente pedagógica.
Portanto,
quando falamos em Educação na Longevidade, não estamos partindo de um vazio
jurídico. O direito existe. A pergunta que a prática me provoca é outra: como
transformar esse direito em oportunidades educativas concretas nos diferentes
lugares onde as pessoas envelhecem?
Porque
uma política de educação ao longo da vida não pode alcançar somente aquela
pessoa idosa que consegue chegar a uma universidade ou matricular-se em um
curso.
É
preciso perguntar também por quem vive distante dos grandes centros ou
apresenta diferentes necessidades de apoio.
É justamente nesse espaço entre o direito reconhecido e a experiência cotidiana que situo a discussão sobre Educação na Longevidade.
Uma discussão que ultrapassa
o Brasil
Essa preocupação não é exclusivamente brasileira. O Plano Internacional de Ação de Madri sobre o Envelhecimento, aprovado em 2002, colocou o envelhecimento dentro da agenda internacional de desenvolvimento e incluiu entre as preocupações relacionadas às pessoas idosas a ampliação de oportunidades educacionais e de aprendizagem ao longo da vida.
Duas
décadas depois, o relatório GRALE 5 da UNESCO mostra que transformar esse
princípio em realidade continua sendo um desafio. A própria organização
ressalta que pessoas idosas estão entre os grupos que permanecem privados de
oportunidades adequadas de aprendizagem de adultos em muitos países.
Existe,
portanto, uma distância entre dizer que aprendemos durante toda a vida e
organizar sociedades que realmente ofereçam condições para isso.
Essa distância é justamente onde as políticas públicas, as instituições e os profissionais começam a fazer diferença.
E onde a Educação encontra o
envelhecimento saudável?
Outra
aproximação que considero fértil acontece com a Década das Nações Unidas do
Envelhecimento Saudável 2021–2030, liderada pela Organização Mundial da Saúde.
Para
a OMS, envelhecimento saudável está relacionado ao desenvolvimento e à
manutenção da capacidade funcional que possibilita bem-estar na velhice. Essa
capacidade depende não somente das capacidades físicas e mentais da pessoa, mas
também dos ambientes onde ela vive e da interação entre ambos.
A
Década concentra seus esforços em quatro grandes áreas: mudar a forma como
pensamos, sentimos e agimos em relação à idade e ao envelhecimento; desenvolver
comunidades que favoreçam as capacidades das pessoas idosas; oferecer cuidados
integrados e atenção primária centrados na pessoa; e garantir cuidados de longa
duração a quem deles necessita.
É
importante fazer uma distinção: Educação na Longevidade não aparece na agenda
da OMS como uma quinta área da Década, e não seria correto apresentá-la dessa
forma.
Mas
vejo uma possibilidade importante de diálogo. Se queremos comunidades e
ambientes que favoreçam aquilo que as pessoas idosas são capazes de fazer e
aquilo que valorizam, podemos perguntar: qual é o papel das oportunidades
educativas na construção desses ambientes?
Aprender
uma tecnologia que amplia autonomia, participar de uma experiência cultural,
conhecer melhor seus direitos, transmitir um conhecimento para outra geração,
desenvolver uma nova habilidade, produzir arte, compartilhar histórias,
construir novos vínculos ou continuar tomando decisões são experiências
diferentes entre si, mas todas nos lembram que uma pessoa continua
estabelecendo relações com o mundo durante a velhice.
É
nesse ponto que vejo uma possibilidade de aproximação entre Educação na Longevidade
e envelhecimento saudável: não confundindo os campos, mas investigando como
oportunidades educativas podem dialogar com participação, autonomia, ambientes
favoráveis, vínculos e bem-estar.
A própria OMS tem reforçado a importância de produzir evidências e melhorar os sistemas de monitoramento das ações relacionadas ao envelhecimento saudável. Isso também nos provoca a pensar em como avaliar seriamente os efeitos das práticas que desenvolvemos, sem reduzir a complexidade da experiência humana a números.
Do direito à prática
Talvez,
portanto, a discussão não precise começar pela criação de mais um direito. O
direito à educação já está colocado.
A
aprendizagem ao longo da vida já aparece no debate internacional. O que
precisamos discutir é como concretizá-la.
Que
formação precisa ter o profissional que desenvolve processos educativos com
pessoas idosas? Como adaptar metodologias sem infantilizar? Como planejar para
grupos profundamente heterogêneos? Como reconhecer aprendizagens quando não
existem provas, notas ou diplomas? Como incluir pessoas com diferentes graus de
dependência? Como transformar experiências pontuais em percursos educativos
continuados? Como registrar evidências sem transformar relações humanas em uma
sucessão de indicadores? E como fazer Educação, Assistência Social, Cultura,
Saúde e Direitos Humanos dialogarem sem apagar as especificidades de cada
política?
Não
tenho respostas prontas para todas essas perguntas. E talvez essa seja uma das
razões pelas quais considero importante colocá-las em circulação.
A
Educação na Longevidade que venho construindo não nasceu primeiro em um
documento. Nasceu do encontro. Depois vieram os registros, os estudos, os
planejamentos, os materiais, a metodologia e a tentativa de sistematização.
Esse caminho também me ensinou que sistematizar uma prática não significa engessá-la. Significa criar condições para compreender por que fazemos determinada escolha, o que pretendemos favorecer e o que podemos aprender com aquilo que acontece.
Não educar para “ocupar o
tempo”
Existe
uma expressão que sempre me inquieta quando falamos de pessoas idosas: “ocupar
o tempo”. Como se, depois de determinada idade, o grande desafio fosse
preencher horas vazias.
O
tempo de uma pessoa com 90 anos não vale menos do que o tempo de uma pessoa com
20. Talvez, justamente por ser um tempo atravessado por tantas experiências,
ele mereça ainda mais escuta.
Educação
na Longevidade não significa negar perdas, doenças, dependências ou
necessidades de cuidado. Também não significa romantizar a velhice.
Significa
recusar a ideia de que essas condições anulam todas as outras dimensões da
pessoa. Alguém pode necessitar de cuidado e continuar aprendendo. Pode
apresentar limitações motoras e continuar produzindo cultura. Pode viver em uma
instituição e continuar fazendo escolhas. Pode apresentar
dificuldades de memória e ainda estabelecer vínculos, experimentar, sentir, criar e participar.
Cuidado
e aprendizagem não são opostos.
Talvez uma sociedade verdadeiramente preparada para a longevidade seja justamente aquela capaz de oferecer ambos.
A escola da vida não fecha
Tenho
aprendido muito sobre Educação convivendo com pessoas idosas. Aprendi que
ensinar nem sempre significa transmitir alguma coisa.
Às
vezes significa criar condições para que uma memória encontre espaço. Às vezes
é fazer uma pergunta e saber esperar. Às vezes é apresentar algo que ninguém
naquela roda conhecia. E, em outras, é perceber que quem deveria “receber” a
atividade é justamente quem tem algo para ensinar.
Talvez
seja esse um dos grandes desafios que a longevidade apresenta à Educação.
Durante
muito tempo perguntamos: Como preparar as pessoas para a vida? Agora precisamos
acrescentar outra pergunta: Como construir oportunidades educativas para uma
vida que pode durar 80, 90, 100 anos ou mais?
Não
tenho uma resposta definitiva. Tenho uma prática que produz perguntas, uma
construção pedagógica em desenvolvimento e uma convicção que se fortalece a
cada encontro: a pessoa não deixa de ser sujeito de aprendizagem porque envelheceu.
Se
a escola formal termina, a possibilidade de aprender não termina com ela. Se a
carreira termina, o desenvolvimento humano não precisa terminar.
Se
determinadas capacidades mudam, outras formas de aprender, ensinar, criar e
participar continuam possíveis.
Por
isso, quando penso em Educação na Longevidade, penso menos em levar uma escola
para dentro da velhice e mais em reconhecer aquilo que a própria vida nos
mostra todos os dias: enquanto houver vida, haverá possibilidade de encontro,
descoberta, troca e aprendizagem.
A
escola da vida não fecha.
Matéria completa disponível em:
https://portaldoenvelhecimento.com.br/a-escola-da-vida-nao-fecha-por-uma-educacao-na-longevidade/
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Vinicius Coelho é Pedagogo, Gerontólogo e Arte-Educador. Atua
diretamente com pessoas idosas em Instituições de Longa Permanência para
pessoas idosas (ILPIs), serviços de convivência e projetos socioculturais em
Florianópolis (SC). Desenvolve estudos, práticas e materiais pedagógicos no campo
da Educação na Longevidade, articulando aprendizagem ao longo da vida, cultura,
participação social e desenvolvimento humano.